Friday, July 10, 2009

livros e escritas

Pedem-me para escrever livros, aqueles amigos aconchegados no meu coração, parentes próximos que se contentam com os meus rabiscos desalinhados em cadernos que, sem querer, acabam espalhados pela casa toda, leitores que me fazem chegar emails em que tecem elogios - nunca percebi como é possível tecerem-se palavras, mas gosto da expressão - e companheiros que, por uma altura ou outra, acabam desencontrados de mim. Tomo esse pedido como um louvor ao que escrevo ou como uma descarga de consciência por saberem que eu não sei fazer outra coisa e que mais valia oficializar aquilo que sempre quis.

Não escrevo um livro por não querer. Não o faço porque não consigo. Escrever não é uma tarefa simples nem simplista, não é um passatempo nem uma actividade que depois largamos quando aparece alguma coisa mais interessante para fazer, não é um escape, não é vago. Não é fácil. E eu não o faço por ser difícil, porque até gosto de coisas desafiantes, mas não o faço porque um escritor não é apenas alguém que regurgita palavras para formar uma narrativa, nem tão pouco é alguém que, por não ter alguma coisa para dizer, se esvai em palavras que depois, no fim de contas, não dizem nada. E também não é alguém, a meu ver, que escreva num blog que, por ter muitos comentários, alguém decide transformar num bestseller, com páginas, capa e contracapa e umas quantas opiniões ilustres. Eu penso que quando se quer escrever se deve pensar no propósito da escrita [e o leitor pergunta, neste momento, qual o propósito da minha, pergunta à qual respondo dizendo que não tenho propósito e, mesmo que tivesse, estaria indecisa entre quais].

Não escrevo, porque um escritor é um filósofo, não porque tece teorias que nos ajudam a perceber a humanidade (apesar de, algumas vezes, acontecer, mas isso requer tarimba), mas porque pensa sobre coisas. Pensar não é fácil e nem sempre é reconfortante. Acima de tudo, pensar não deve ser feito de ânimo leve.

Um escritor não deve escrever para libertar as suas neuroses, para desabafar sobre os seus problemas, para nos relatar a sua vida. Ele escreve para nos contar estórias, com uma moral ou uma lição que nos faça pensar. É isso. Um escritor é um ser que pensa e que faz pensar. Eu sei que está na moda despejar paranóias e emoções e transformar isso em livros sentimentais. Isso é um género de escrita que eu penso que deveria ser relegada para os diários, apesar de quase não os venderem por terem passado de moda com isto da internet.

A escrita é um trabalho sério, que requer uma rotina. Eu sei que nos filmes fazem parecer que o escritor foi subitamente iluminado pelo divino, ou pelo que lhe quiserem chamar, e que a partir disso escreve grandes epopeias que comovem milhões de pessoas. Não é assim ou, pelo menos, eu não acho que seja.

Escrever é abstrairmo-nos de nós próprios. E isso, eu não consigo fazer. Acho que sou egocêntrica.

"Happiness is a sad song..."

Thursday, July 09, 2009

A minha lua

Lembro-me de ter frio e depois de não ter frio. Ah, sim, tinhas os braços à minha volta e a respiração quente no meu cabelo. E a lua, cheia e em tons de âmbar, à nossa frente, como se fosse a nossa única luz. Talvez fosse. Na verdade, não me lembro ao certo do tom da lua, porque recordo momentos como este a preto e branco. Como uma foto antiga. Há quem diga que lembranças assim são mais românticas. Eu apenas penso que, como diz uma música, entre o preto e o branco há muitas tonalidades de cinzento e que quando o coração bate depressa, todo o colorido se esvai e que quando o calor percorre todo o corpo as cores não servem para nada, senão para nos lembrar que há uma realidade à qual temos de voltar, um dia ou daí a instantes, e que, por isso, em momentos assim, mais vale esquecer que existem outras cores senão a dos teus olhos que, na penumbra, são cinzentos.

A minha lua, aquela que arranquei do resto do mundo apenas por pensar que era só minha, porque quando a vejo contigo tudo o resto desaparece, é feita de recortes. Apesar de ter pensamentos abstractos e de não conseguir transmitir, por palavras, aquilo que é a minha lua, ela existe e disso tenho a certeza, de entre as poucas certezas que, na verdade, tenho. Não me importo que ninguém perceba nada do que escrevo e que, por isso, não perceba nada do que penso, porque sempre foi assim e os hábitos tornam-se coisas só nossas, cada um dos hábitos que vamos surripiando à rotina, e coisas nossas não precisam de ser percebidas por mais ninguém, senão por nós.

Lembro-me de não ter frio e lembro-me de caber toda dentro dos teus braços e lembro-me de deixar de ver a lua, mas de saber que ela continuava no mesmo sítio, talvez um pouco mais acima, para escutar melhor os segredos que nem o silêncio conseguiu perceber.

E depois lembro-me de ir dormir e de sonhar contigo e depois lembro-me de acordar e de me lembrar que sonhei contigo.

"Happiness is a sad song..."

selinho

Regras:

1-Publicar a imagem do selo e identificar a amiga que o deu (obrigado Sandie);

2- Escolher 5 situações da tua vida, que mereciam ser repetidas em câmara-lenta ;

3- Passar o desafio a outros blogs e avisá-los ;

As minhas situações:

1. A primeira vez que falei; apesar de não me recordar, foi a partir daí que cheguei até aqui, aos devaneios quero dizer.

2. O primeiro beijo. Ah, não, mas esse já foi em câmara-lenta. Pronto, um bocadinho mais lento, vá.

3. O dia em que o meu irmão nasceu. Ou melhor, o momento em que recebi a notícia. Tinha chegado da escola e o meu pai estava uma pilha.

4. O dia do baptizado do meu afilhado. Já tinha 20 anos, mas só aí me senti mesmo adulta.

5. Estou indecisa. Há muito mais momentos que mereciam ser vistos em slow motion. Hum. A primeira vez que um livro me fez chorar.


Como já vem sendo hábito nestas coisas, abstenho-me de agraciar este ou aquele blog. Passo o desafio a todos os que o quiserem fazer.

"Happiness is a sad song..."

Tuesday, July 07, 2009

das diferenças II

Prefiro pensar que somos seres de memória curta do que pensar que somos seres que não aprendem com os erros que cometemos. Torna-nos mais inteligentes do que somos, talvez, mas é por isso mesmo que eu prefiro pensar assim, como optimista que tento ser - e raras vezes sou, para dizer a verdade.

Lá estou em com generalizações, pensa o fiel leitor que tem acompanhado estes devaneios tanto quanto possível, mas também eu sou um ser de memória curta e, admito-o profundamente, também sou um ser que nem sempre aprende com os erros. Não quero fingir que sou filósofa, apenas penso sobre algumas coisas a caminho de algum sítio, no comboio, enquanto leio, enquanto vejo televisão, quando oiço algum tipo de música que facilita a introspecção, enquanto cozinho ou lavo a loiça e noutros momentos que prefiro não referir. E depois venho para aqui massacrar quem me lê com estas análises superficiais de uma realidade que tem o condão de me surpreender a cada instante e fazer com que o fiel leitor tenha vontade de espetar lápis nos olhos. Eu sei, convivo com os meus próprios pensamentos todos os dias, todas as horas e minutos e outras pequenezas horárias, e sei que a mim me apetece.

O que me ocorreu, enquanto fazia o jantar ao som do noticiário da noite e do vento que fazia bater os estores, é que a maior parte de nós sofre desse síndrome que são as questões existenciais, normalmente naquela fase da vida que nos faz hesitar entre preocuparmo-nos com súbitos ataques de acne ou com os primeiros desastres amorosos [digam-me que isto não é uma generalização sem sentido]. E depois o que acontece a todas essas perguntas sem resposta?

O que me parece é que ficam sem resposta por tempo indefinido, especialmente porque, por alguma razão intrínseca ao nosso código genético [quero acreditar que não é algo consciente], enterramos todas as questões bem lá no fundo enquanto mascaramos as nossas dúvidas com certezas instantâneas, como quem disfarça um lobo com a pele de um cordeiro. Ou então arranjamos diversas formas de não pensarmos mais no assunto, distraindo essa parte do cérebro que faz essas perguntas, um pouco estúpidas e inquietantes, com coisas aparentemente mais importantes [ou talvez até sejam mesmo mais significativas]. Exemplos dessas coisas: trabalho, amores e desamores, convívios sociais, planos, metas, desafios.

E depois, quando a tal da realidade que tem o condão de nos surpreender com coisas inesquecíveis se lembra que nós existimos, acontece-nos alguma coisa que nos deixa pensativos outra vez, libertando-nos momentaneamente da maturidade para voltarmos às questões existenciais que nos assombraram a adolescência. Exemplos dessas coisas: o nascimento do nosso ou do rebento de alguém próximo, a morte de alguém que nos é querido, uma doença que nos coloca no limiar da vida ou da morte, um ou outro livro mesmo bom, entre muitos outros.

Contudo, depois de tudo isso, depois de choros e desconfortos e de tentativas de consolo com caixas de gelado e chocolate, bebidas com alto teor alcoólico ou, possivelmente, tentativas de suicídio [eu sei, sou o exagero em pessoa], voltamos à vidinha de sempre.

E onde quer a Luna chegar com tudo isto? A lado nenhum, obviamente, já que retirar conclusões destes raciocínios um pouco delirantes é como usar óculos verdes para verde perto: só resulta com a graduação correcta. Foi só um desabafo.

"Happiness is a sad song..."

Monday, July 06, 2009

Escritas

Às vezes não parece, mas eu não escrevo para mais ninguém senão para mim. E fico contente quando me dizem que gostam do que escrevo, que concordam com o que digo, que acreditam no que debito por aqui. Faz-me pensar que, apesar de tudo, não escrevo só para mim. O que é um paradoxo, eu sei.

Ontem gostei de estar descontraidamente à volta de meias de leite num café, com amigos que não via há algum tempo, apenas para comprovar que está tudo na mesma. E é tão bom quando assim é. Entretanto juntaram-se-nos uns outros "seres criativos", como eu gosto de os chamar, que encontrámos por acaso na Feira Medieval em São Pedro de Sintra e acabámos por passar um bom bocado, a dissecar os feitios de cada um.

Aquele que gosta mais de dar do que de receber, aquele que gosta de fazer a paciência dos outros chegar ao limite, aquela que se preocupa mais com as roupas que usa do que com o futuro, aquele que lê mais do que seria mentalmente saudável, aquela que não pára de beber chás de tom âmbar de garrafas de água, aquele que faz meias de leite maravilhosas e que degusta o luar com um simples olhar, aquele que comprou demasiadas cerejas ao frade que andava pela feira a distribuir quadras improvisadas, porque as adora. E depois
eu. A que passa pelo microscópio mental lamelas com pedacinhos de vida que vai acumulando em memórias.

Estes seres criativos gostam especialmente de me enfastiar com pequenos relatos caricaturados daquilo que aparento ser, por vezes daquilo que sou. Isso assusta-me e já lhes disse.

Eu sei que falo muito e escrevo mais ainda. Por isso mesmo, assim do nada, um desses seres falou-me na lei da poupança verbal, que não é nenhuma teoria comprovada, nem é conhecida mundialmente, nem se rege por termos científicos. É apenas uma passagem de um livro de Inês Pedrosa que esse ser anda a ler [agora é fácil de adivinhar qual dos meus amigos é, pelas breves descrições de feitios que escrevi mais acima]. É qualquer coisa do género: uma ideia, meia palavra. Coisa de que eu não sou capaz, claro, porque preciso de muitas palavras para descrever uma ideia, por mais simples que seja.

Passámos a tarde a discutir esta teoria inexistente, depois dos pés cansados se terem arrastado por toda a feita, a espreitar barraquinhas com nomes medievas e a provar doces conventuais e a comprar coisas completamente inúteis. E depois...

...depois fui à Fnac comprar o tal livro,
Nas tuas mãos, e mais outros dois que estavam baratinhos.


["Alcagoita" e a feira cheia]



[a t-shirt rosa com que toda a gente gozou, os arcos que toda a gente quis levar e o alvo que me saiu furado...ao meio, claro]



[a face que amedrontou crianças]



[a mulher acusada de bruxaria]


[o frade das cerejas]


"Happiness is a sad song..."

Inveja

Quando for grande, quero saber cozinhar assim.

[é mesmo uma Flagrante Delícia...huuummmmmm]

"Happiness is a sad song..."

Sunday, July 05, 2009

Coisas sem interesse mesmo nenhum III

A minha mami tem a irritante mania de comprar sapatos que depois não consegue usar. Como calçamos o mesmo número, penso que vou ter uma bela herança. Hoje fomos a um almoço e lá foi ela com uns sapatinhos por estrear, muito contente quando, a meio do caminho, se começa a queixar de dores. Claro, só mesmo ela para não se lembrar de usar os sapatos antes das ocasiões em que os vai calçar, just in case.

Resultado: lá teve a Luna de trocar os seus bons e confortáveis saltos de cunha, cor-de-rosa e com o aspecto de terem sido feitos à sua medida, por umas sandálias, de salto ligeiramente maior, brancas e...empastadas de creme, que a mami insiste em pôr nos pés antes de se calçar. O facto de usarmos o mesmo número não faz dos nossos pés semelhantes: os dela são gordinhos e mais curtos, enquanto que os meus são estreitos e mais compridos. Resultado: as sandálias estavam largas e escorregadias. Acho que se adivinha o final desta estória, por isso não vou ser óbvia.

"Happiness is a sad song..."

Friday, July 03, 2009

Just shoot me III

Obrigadinho por me terem avisado que os dois botões da minha camisa, já de si decotada, se desabotoaram sozinhos com a correria da manhã. Obrigadinho colegas, senhores entrevistados, relações públicas (os quatro com quem falei), secretárias, recepcionistas, seguranças, as duas senhoras com quem falei, o homem a quem pedi indicações, chefes, o senhor do café e a respectiva empregada do balcão. Há gente muito simpática, realmente. Eu sei que a moda ultimamente é uma coisa estranha e que até é muito comum andar-se com a pele toda ao léu, como se estivessemos todos na praia. Mas se a camisa tem dois botões e o sutiã é assim de uma cor neutra, para não dar nas vistas, se calhar é porque não era suposto eu andar nestas figuras. Ou se calhar isto foi um raciocínio demasiado rebuscado...

Enfim. Ainda bem que há lojas com os vidros bem lavadinhos, que reflectem a nossa figurinha triste como se fossem espelhos.

Há coisas que eu gosto que me avisem: se tenho algum inquilino no salão, que é como quem diz se há algum orangotango a pender, if you know what i mean, [senão eu sou mais explícita: se há algum macaquinho no nariz]; se tiver alguma coisa nos dentes, estilo um pedaço de alface ou uma semente de gergelim preta, por exemplo; se tiver alguma nódoa na roupa; se tiver os atacadores desapertados; se estou despenteada; E SE TIVER AS CAMISAS DESABOTOADAS. Entre outros.

Agora vou-me calar.

"Happiness is a sad song..."

Coisas sem interesse mesmo nenhum I

As famosas bolachas Oreo agora vendem-se num pacote único, num tubinho, todas alinhadinhas e bonitinhas, em tons de preto e branco literalmente. Ora, com os pacotinhos individuais uma pessoa geria bem as coisas: comia um pacotinho e pronto. Agora, com o tubinho, uma pessoa está distraída a fazer outra coisa qualquer enquanto come e, quando dá por si, puf!, lá foi mais de meio tubo.

Sou mesmo uma alarve...

"Happiness is a sad song..."

Wednesday, July 01, 2009

do jornalismo I

O que mais me irrita às vezes, no jornalismo é a morbidez. A busca incessante por sangue, por escândalos, por sofrimento alheio, por azares, por pessimismo. Em suma, pelo lado negativo da questão.


As chefias indicam-nos este ou aquele caso, expõem-nos o assunto de determinada forma, normalmente não muito positiva, e nós lá vamos, prontos para bombardear os nossos entrevistados com questões focadas nos pontos negativos. E depois, damos por nós, a meio das entrevistas, a pensar que, no fundo, tudo aquilo foi má interpretação ou mesmo uma cegueira momentânea por parte de outrem, e que o assunto é mais do que positivo para a sociedade e que, se calhar, o melhor é mudarmos o rumo do nosso trabalho.


Já não é a primeira vez e não será a última que isto me acontece. Está claro que o que vende mais e melhor são as notícias negativas, mas o mundo não é feito apenas disso. O jornalismo não foi criado apenas para apontar ou para servir de ferramenta do serviço público. Às vezes, o jornalismo é apenas uma forma de trazer o optimismo de volta às pessoas [que bem precisam].


"Happiness is a sad song..."

Tuesday, June 30, 2009

à procura de calor

Tinha pensado em noites em branco, de nevoeiro fresco e abismos escuros, negros como breu - como detesto frases feitas - , mas o que me trouxe a madrugada foram sonhos que arrastaram em si a melancolia de tempos passados. De pedaços desmazelados (re)construí, como se de um puzzle se tratasse, momentos e memórias esbatidas. No escuro, sempre no escuro. É no silêncio e nas trevas que surgem as mais inspiradas aspirações, as mais irreais fantasias e os mais calados choros. Mas o sol entra, sozinho e sorrateiro, pelas frinchas adentro e enche tudo de calor que não aquece. Queria que chegasse o verão. Como deve ser.

"Happiness is a sad song..."

Sunday, June 28, 2009

dos domingos II

Os domingos também são dias sentimentais, especialmente se os passamos de pijama, do princípio ao fim, a fazer coisas que se fazem tipicamente em invernos frios. E não é que esteve frio? E choveu? E eu cheia de sono. E a casa vazia.

Domingos são dias sentimentais, especialmente se temos de nos despedir de alguém, mesmo que saibamos que a ausência não vai ser muito demorada. Quando se gosta muito de uma pessoa, não existe essa coisa de pouco tempo, porque tudo o que implique saudades já é muito e dói. Ou se calhar eu é que sou uma exagerada. É bem provável. Sou o tipo de pessoa que não lida muito bem com tudo o que implique qualquer tipo de sofrimento [mais comummente apelidada de piegas].

Na verdade, saudades são uma coisa estranha. Estamos convencidos de que temos saudades quando, no fundo, é ela que nos tem. Ela apodera-se de nós e sufoca-nos a alma, comprime-nos o coração e, às vezes pode chegar a cortar a respiração. Para mim, saudade não é solidão, como indica a origem latina da palavra, mas sim ausência. Podemos estar rodeados de pessoas, mas há sempre alguma coisa que falta, como se faltasse uma única peça do puzzle. É isso a saudade.

A saudade é uma coisa estranha pelo seu antagonismo. É que, sendo ausência, é por isso também, uma presença constante. Citando um dos meus cantores preferidos, Damien Rice, a saudade é qualquer coisa como "drinking from an empty glass"*.

Eu bem sei que a saudade não se mede. Mas se houvesse uma escala, eu com certeza já teria atingido o limite. É que estou cheia de saudades, só de saber a distância que nos separa. Arriverdeci, my love. Volta depressa.

*The animals were gone, Album "9"

"Happiness is a sad song..."

Conversas de esquina II



Com a calçada desalinhada a estragar os sapatos, aqueles vermelhos com que sabe tão bem dançar, o vento húmido de Sintra a soprar por entre os cabelos, os turistas apontando destinos no mapa da cidade, seguimos, com o jornal debaixo do braço. E, como sempre, parámos numa esquina, nem sabemos nós porquê. Acho que há qualquer coisa nas esquinas que atrai devaneios.

Ele - Acho que não vou entrar. Fico lá fora à tua espera.

Luna - Então por que vieste? Mais valia teres ficado em casa.

Ele - Tudo são bons pretextos para vir a Sintra.

Luna - Tens vergonha de entrar?

Ele - Sim. Muita. Além disso, não leio notícias há tanto tempo. E nunca li esse jornal. É uma vergonha, eu sei.

Luna - Eu tenho vergonha de entrar sozinha.

Ele - Fazemos assim. Eu acompanho-te até lá e depois vou dar uma volta e tirar fotos ou assim.

Luna - É bom que tires pelo menos uma que compense a minha solidão lá dentro, com tanta gente jornaleira... ai [suspiro], haja paciência e muito champanhe para comemorar.

Ele - Espera. Vai haver álcool?
Sister, i'm in!

Ainda bem que tenho amigos que se vendem por tanto. O mais engraçado é que não, não houve álcool. Mas houve fotos, a seguir, acompanhadas de queijadas compradas naqueles tubinhos e sumos bebidos directamente das latas, no átrio daquele monumento que é só chaminés. Acho que não me canso de Sintra.

"Happiness is a sad song..."

Friday, June 26, 2009

Just shoot me II

Qual é a probabilidade de entrevistarmos um prémio Nobel da Literatura (do ano 2000), oferecerem-nos um livro com as suas obras de pintura...e esquecermo-nos de lhe pedir um autógrafo depois de cerca de duas horas de conferência?

Felizmente, há coisas que ficam presas à memória. Como as suas palavras tão orientais, mas tão filosóficas, a sua visão sobre os problemas do mundo, os seus traços característicos a tinta da china sobre papel de arroz, o seu sorriso, as suas tiradas, o seu cunho de génio incompreendido (até agora, nenhuma das suas obras foram aceites no seu país, a China), a sua versatilidade que inclui o jeito para demonstrar palavras em imagens e imagens em palavras. "Pinto quando não consigo continuar a escrever. Escrevo quando não consigo continuar a pintar", disse ele. A forma como se expressa pela pintura denomina-se xieyi, uma técnica tradicional chinesa que pode ser traduzida por "pintura do sentimento" ou "escrita do espírito". Nada mais adequado para sintetizar o seu trabalho.

É novelista, dramaturgo, ensaísta, realizador de cinema e de teatro e artista plástico. Mas acima de tudo, em todas as suas obras, demonstra algo maior do que a própria existência humana. A sua matéria prima são as emoções e o espírito. "Podemos fugir da tirania política, mas nunca podemos fugir de nós próprios", disse ele e eu tive a impressão de que aquela frase continha em si algo de muito pessoal, já que esteve radicado em França, principalmente devido às pressões da censura por volta de 1987, se não me engano.

Li o livro Uma cana de pesca para o meu avô quase de uma assentada. Vi todos os seus 74 quadros expostos, desde ontem e até Setembro, no Museu de Arte Moderna, em Sintra. E sinceramente, fico surpresa por não ter ouvido falar deste senhor, Gao Xingjian, há mais tempo.

Agora toca a escrever um artigo e aproveitar que a redacção está assim para o vazia. Viva às sextas-feiras...

"Happiness is a sad song..."

Wednesday, June 24, 2009

Estórias

Tenho a ligeira impressão de que vou ter menos tempo para blogar. O que não é mau, é simplesmente assustador, pelo menos para mim. Imagino-me agora, numa qualquer reunião de Blogueiros Anónimos, a levantar a mão e a dizer "Olá, eu sou a Luna e não posto há x dias". Sinto já o peso das palavras na mente, porque quando não as gasto, elas acumulam-se e eu torno-me, também, mais pesada e letárgica. Não se trata de escrever ou não, até porque aquilo que me vai ocupar os dias me vai fazer querer andar com o dicionário atrás, para compensar as palavras gastas que se usam no meio jornalístico. A questão é que não vou poder escrever as minhas palavras, ou melhor, aquelas que fui surripiando ao longo de uns quantos anos de devaneios.

A questão é que eu gosto de escrever estórias. É disso que este pasquim se trata, é disso que se trata o jornal para onde vou, é disso que se trata o mundo. Vivemos de estórias: as que nos contam em pequenos e as que depois, em adultos, vamos reproduzir a outros pequenos; as que correm como boatos, as que inventamos nos nossos daydreams ou as que o nosso subconsciência inventa a partir de pormenores do quotidiano e que nos fazem acordar estrebuchados; as que os políticos contam para salientar uma ideia e que muitas vezes são mentira; as anedóticas, que nos fazem rir ou nem por isso; as de terror nos acampamentos ou nas noites de trovoada, as estórias de vida que nos contam as pessoas mais velhas, quando já temos idade para perceber a moral e as lições que nela estão implícitas; as que lemos nas notícias, que não passam de relatos de quem esteve no lugar [certo à hora certa].

Gosto de estórias e de histórias. Gosto de palavras. E não me canso de ler.

Sempre que não tiver tempo para escrever, faço uso dos posts que ainda tenho em draft. Ainda bem que tenho lá uns vinte e tal.

"Happiness is a sad song..."

Tuesday, June 23, 2009

Diferenças

Descobri que em Inglaterra e nos Estados Unidos, sempre que há conferências relacionadas com livros e todo esse mercado outrora em expansão, são distribuidos galleys. O que são? São cópias não corrigidas de livros, que os editores optam por lançar prematuramente para a comunicação social ou equivalentes. Actualmente, devido à contenção de custos, são lançados e-galleys: normalmente são postais com a capa dos livros, que revelam, na parte de trás, um código de acesso que permitirá descarregar o exemplar de algum site.

O objectivo? Criar, desde logo, o burburinho e permitir que saiam, coincidentemente com a publicação da obra, críticas e ensaios, em princípio favoráveis, e também, digo eu, apressar a compra dos livros, de acordo com a exposição mediática.

Por cá, as coisas não funcionam bem assim. Ao que parece e pelo que tenho visto, aqui os livros são distribuídos pelas livrarias antes de chegarem às redacções e, muitas vezes, só depois de estarem nos tops de vendas é que são alvo de críticas, favoráveis ou desfavoráveis, por parte dos jornalistas. Às vezes, eu acabo por ler uma crítica de um livro que já li e só não passo à frente, porque gosto de auscultar opiniões sobre as coisas que me vêm parar às mãos.

Living and learning...ou melhor, só living, porque aprender, parece que não aprendemos nada.

"Happiness is a sad song..."

Não conseguir dormir dá nisto...devaneios

Tinha escrito um post, um pouco lamechas e cliché. E dei por mim a ver os meus dedos a ganhar vida própria e a apagarem tudo, num ápice. E cá estou eu a recomeçar, desta vez de forma mais racional, dentro dos possíveis para uma criatura lunática, claro está.

Não consigo dormir. Há sempre alguma coisa que me faz acordar ou que me distrai daquele grande fosso que aparece e no qual vou caindo, gradualmente, enquanto me sinto afastar da realidade. Não há grande barulho a esta hora, não há carros a passar nem gente a falar, não há televisões ligadas nem passos no corredor. É mesmo o silêncio, pesado e barulhento. Quando ele aparece, como aqueles monstros que estavam sempre na iminência de sair do guarda-roupa quando eu ainda tinha medo do escuro, os meus olhos abrem-se automaticamente.

Há um grande silêncio que a música não abafa, que a respiração não corta, que o chilrear suave das primeiras aves da manhã não disfarça. E o único remédio são as palavras, que soam como se fossem enormes, garrafais, como as letras que a professora da primária escrevia no quadro, para nos ensinar a escrever à máquina. Escondo os olhos nas páginas e o silêncio esmorece, enquanto viajo por terras desconhecidas. Agora estou na China, no tempo do comunismo, na casa de um soldado que espera pacientemente pelo 18º ano de pseudo-casamento com a sua amante para se poder divorciar da mulher, sem o seu consentimento.*

Só as palavras, ainda que silenciosas, acabam com o eco do silêncio. A ironia? A ironia é saber-me bem o silêncio depois da leitura. Aí já consigo adormecer e deixo-me cair no fosso. E pouco depois, já são horas de acordar, porque a manhã não me deixa dormir.

*Waiting, by Ha Jin

"Happiness is a sad song..."

Monday, June 22, 2009

Conversas de esquina

Ele - Estava a ler o teu blogue, sabes, e de repente tive um ataque de espirros. Eu! Que não costumo espirrar. Será que existem espirros psicológicos? Assim como há os bocejos induzidos.

Eu - Agora que falas, pensei nisso enquanto espirrava. Eu estava a dormir muito bem, acordei e depois comecei a espirrar. Isso quer dizer que se não tivesse acordado, não tinha espirrado, certo? O que pode querer dizer que aquilo eram espirros psicológicos.

Ele - Não te quero assustar, mas na Idade Média acreditava-se que quando uma pessoa espirrava ficava vulnerável aos espíritos maléficos e, por isso, era mais fácil ser possuída. E se acordaste rabujenta e tudo, quer dizer que não estavas em ti. Devíamos ir a uma igreja para tratar do teu exorcismo.

Eu - Então prepara-te que vem aí o vómito verde.

Ele - ...


"Happiness is a sad song..."

Just shoot me

Hoje estou rabujenta. Muito rabujenta. Tão rabujenta que nem eu me aturo. E estou sozinha com a minha rabujentice. E vou continuar a repetir a palavra "rabujento", apesar de já a ter referido quatro vezes antes desta, porque acho piada. E pode ser que assim ela se vá embora mais depressa, a rabujentice. I wish.

E por que estou eu assim? Porque o calor não me deixou dormir bem, porque a minha noite foi interrompida por um ataque de espirros, porque o meu sono é tão leve que chega a ser mais leve do que o ar, porque tenho um trabalho muito chato para fazer; porque se eu quisesse podia nem fazer, mas esta minha consciência parece um pedaço de chumbo de tão pesada que está, porque tenho um deadline muito curto e a culpa é da preguicite e do calor, que me tornam desconcentrada e molengas; porque não sei o que hei-de fazer para o almoço, porque discuti com o meu irmão, ontem e hoje, e sei que tenho razão, mas os níveis de testosterona dele devem estar nos píncaros; porque hoje o correio ainda não veio e eu estou ansiosa por receber uma coisa, porque preciso de açúcar, mas eu faço bolos e eles no dia seguinte não passam de meia dúzia de migalhas num prato demasiado grande; porque sangrei do nariz e detesto sangrar do nariz porque a seguir fico com quebra de tensão e depois aí é que não consigo fazer nada; porque tive um pesadelo enquanto dormia, o que fez com que dormisse pouco e mal, e de vez em quando, vou-me lembrando de pormenores desse pesadelo.

Agora só me apetecia desligar o telemóvel, desligar o computador, correr os estores, vestir roupa fresquinha e estatelar-me na cama. E esquecer que existe um mundo que não pára, lá fora.

"Happiness is a sad song..."

Saturday, June 20, 2009

Friends II

Há amigos que nos arrastam de casa depois de um dia cansativo, em que se andou de um lado para o outro e se parou no dentista para sair de lá com mais dores do que quando se entrou, só porque após uns quantos meses de paragem se voltam aos artigos. Desta feita, no Jornal de Sintra. Há amigos que são assim, que exageram tudo o que fazemos e que uma coisinha com menos de 2500 caracteres já lhes parece uma capa num jornal nacional.

Há amigos que nos fazem brindar mesmo quando não nos apetece beber e que nos fazem trocar um copo de champanhe por um copo de guaraná, sem ninguém reparar, para não lhes estragar o momento. Sim, foi vosso aquele momento e não apenas meu. Porque as nossas pequenas alegrias só o são quando partilhadas com aqueles de quem mais gostamos.

Por estranho que pareça, fiquei mais feliz por estarmos todos juntos do que por ver o meu nome no jornal. Contento-me com muito, é o que é.

Ontem estive com as pessoas de que mais gosto neste mundo. Literalmente. Tirando a ida ao dentista, podia ter sido o dia perfeito.

"Happiness is a sad song..."

do cinema III


Era uma vez um menino de oito anos que pertencia a uma raça que se achava superior, filho de um pai que era soldado ao cargo dessa mórbida utopia de nome nazismo e que se mudou para o campo em plena II guerra mundial. Aí descobriu que da janela do seu quarto podia ver uma "quinta" onde toda a gente se vestia com "pijamas" às riscas - para os adultos, um campo de trabalho pejado de judeus. Foi aí que ele conheceu um menino da mesma idade que ele, com quem travou amizade, apesar das diferenças raciais que, no fundo, não eram assim tão importantes para que se dessem bem.

Não vou contar mais.

Este filme fala sobre a perda da inocência, da injustiça, da guerra, da ingenuidade, da história e vai deixando pormenores que nos fazem pensar em coisas muito maiores. Eu já estava preparada para um final pouco feliz porque, afinal, filmes que retratem esta época e que envolvem crianças só prometem finais assim. E fiz força para não chorar e tentei pensar em coisas bonitas e tudo isso. Mas é impossível. Mal posso esperar por ler o livro que, segundo me disseram, é para crianças. Se não estou enganada, este deve ser um dos poucos livros que fala do Holocausto à camada mais jovem. Já não era sem tempo.

O filme fez-me pensar em várias coisas e trouxe para a superfície toda a lamechice que há em mim: as crianças andam tão iludidas com o mundo!; os adultos nunca deviam deixar de ser crianças; não deviam existir adultos, porque eles só têm ideias estúpidas tipo criar conflitos onde eles não existem; se não tivessem ocorrido estas catástrofes tão pouco naturais, não teríamos chegado onde chegámos...mas isso é bom?, pergunto eu; o sofrimento, de qualquer tipo, infligido é vergonhoso; o nazismo foi/é um grande monstro; o mundo devia ser comandado por crianças.

Nota: ver este filme sem um pacote de lenços de papel ao lado é um grande erro.

[quando não tenho sobre o que escrever, escrevo sobre filmes que já vi]

"Happiness is a sad song..."

Outros lunáticos

Para quem gosta de (boa) música acústica, de vozes quentes, de ritmos que aconchegam estados de espírito, a Luna recomenda uma banda que ainda é bebé, mas que promete chegar longe. São meus amigos mas, mais do que isso, são bons músicos: luaCústica.

Este sábado vão dar um concerto no Espaço TapaFuros, em Mem-Martins a partir das 22h. Mas quem não pode ir não tem desculpa para não ouvir: é que o concerto vai ser transmitido em directo na internet. E aqui copio descaradamente do site destes meninos os passos para o fazer:

Eis os passos a dar para ouvir a transmissão:


1 - Copiar o link http://luacustica.podzone.net:65535

2 - Abrir o Windows Media Player ou qualquer outro programa que usem para ouvir música (por exemplo, Winamp, VLC Player, iTunes, etc)

3 - Com o programa aberto, ir ao menu "Ficheiro" e depois a "Abrir URL"

4 - Nesse espaço, colar o link que acima referimos e clicar em "OK"

5 - Aguardar alguns segundos, até que o contacto seja estabelecido.

6 - Bom concerto! Esperemos que gostem.

NOTAS:

- Não vale a pena abrir o link directamente com o browser da Internet, pois não irá dar a nenhuma página nem abrirá qualquer programa de áudio;

- No caso de terem a versão 11 ou superior do Windows Media Player, assim que esteja aberto, é necessário carregar na tecla "Alt" para fazer aparecer os menus, no canto superior esquerdo;

- Caso apareça um erro de "bad request" ou "servidor ocupado", é possível que o servidor já se encontre demasiado cheio para permitir mais ouvintes. Em todo o caso, se necessitarem de apoio técnico, poderão, durante o concerto, contactar-nos através do e-mail: luacustica@gmail.com

E para deixar o gostinho, aqui vai um sneak peak do que podem ouvir:


Ruben - Não me esqueço.mp3 - Ruben Portinha

"Happiness is a sad song..."

Thursday, June 18, 2009

Friends

Os meus pais sempre foram pessoas muito extrovertidas, que gostavam de sair e de se divertir. Desde que eu me lembro, sempre me levaram a festas e convívios, excursões, passeios. E, de repente, deixaram de o fazer. Há muito que não saem sem que eu tenha de insistir, há muito que não têm amigos a sério e há muito que vivem presos à rotina.

E hoje, por alguma razão, numa conversa banal, puseram-se a elogiar os meus amigos. Os mais íntimos e mais próximos e aqueles que entretanto fui conhecendo e que para lá caminham. E foi aí que eu me apercebi da sorte que tenho por ter conhecido pessoas que me são tão queridas. Quantidade e qualidade. Sou mesmo sortuda.

"Happiness is a sad song..."

Wednesday, June 17, 2009

do cinema II


Tinha já alguns juízos de valor guardados antes de o ver. E depois, todos eles se multiplicaram em muitos outros juízos de valor. Gostei do filme, claro que sim, porque sou previsível. Mas mais do que gostar, pus-me a pensar em fazer o mesmo que a personagem principal. E quando um filme nos faz querer tomar atitudes, é porque mexeu connosco. E se mexeu connosco é porque entrámos na estória. E se entrámos na estória é porque é um bom filme.

Quando um filme é baseado em factos reais, uma pessoa põe-se a pensar. Enfim, nem digo mais para não ser lamechas nem cliché.

[Obrigado Sandie =)]

"Happiness is a sad song..."

Shoot me

Hoje levantei-me a barafustar. Aliás, a resmungar entredentes como os velhotes fazem quando rezam ou quando...resmungam entredentes. Estava chateada porque tinha duas coisas para fazer exactamente à mesma hora, em sítios distantes um do outro [um dia explico melhor o que ando eu a fazer quando não estou assim tão desocupada].

Vesti-me e terminei todas as rotinas matinais, para me sentar em frente ao computador e rever alguma informação útil. Sempre a resmungar, claro. Saquei da agenda para fazer umas anotações importantes. Preparo-me para sair. E lembro-me de mandar uma mensagem. Olho para o ecrã do telemóvel e, como fiel companheiro de uma criatura despistada, ele mostra-me as horas e o dia. E o dia não era o que eu esperava que fosse. E aquelas duas coisas que a Luna tinha para fazer tinham sido no dia anterior, terça-feira, 16 de Junho.

Já não é a primeira vez que isto acontece. E estes dias que me escapam, não sei para onde vão. Às vezes parece que vivo na Quinta Dimensão.

Adenda: pouco depois de ter enviado um email para remediar um dos casos, recebo um telefonema...já me tinha esquecido que, só para verem sair uma notícia, as pessoas se tornam muito amáveis e prestáveis. Ainda bem para mim... *banghead*

"Happiness is a sad song..."

Tuesday, June 16, 2009

Devaneando lunaticamente sobre a felicidade

Eu não sei quem é que se dá ao trabalho de me enviar emails a congratular posts, a pedir posts sobre determinados assuntos, a perguntar se me podem conhecer e, mais estranho de tudo, a pedir a minha opinião sobre isto ou aquilo.

Quando coloquei o meu endereço de email na barrinha aqui ao lado, não sabia bem o que esperar. Na verdade, só o pus lá porque me pareceu democrático [naquela altura andava a fazer um trabalho para a faculdade sobre a censura e essa foi a forma de demonstrar a minha revolta contra o lápis azul].

Ontem, depois de jantar, sentei-me, com a minha canequinha de estimação cheia de meia de leite, para ver o email. Por entre spam e aqueles típicos powerpoints que nos entopem a caixa de correio, encontrei uma mensagem que me pareceu digna de registo. Na verdade, a princípio pensei que fosse spam, mas na verdade, era uma espécie de carta que demorei cerca de meia-hora a ler, não por ser comprida, mas por ser profunda. Obrigado ao Anónimo que a enviou.

Levei algum tempo a pensar se responderia no blog, como foi pedido. O Anónimo incitou-me a explicar, por minhas palavras, o que é a felicidade, pois pareceu-lhe que eu era uma pessoa triste. O que se segue requeriu muitas lufadas de ar fresco e uma certa dor de cabeça, já que os meus dois neurónios não estão habituados a trabalhar tanto.

Em primeiro lugar, o que é isso de explicar por palavras minhas? As palavras são de todos e no fundo não são de ninguém. E eu tenho a noção de que apenas as peço emprestadas para servir algum propósito. Neste caso, para escrever sobre a felicidade.

Eu não sou uma pessoa triste ou melancólica. Nós não somos o que escrevemos. Ou pelo menos é assim que eu penso. Por outro lado, todos temos em nós pedacinhos de várias coisas. Por exemplo, não sei se já reparou que, ao contrário da língua anglo-saxónica, nós temos uma panóplia incrível de palavreado. Eu gosto de referir o verbo ser ou estar, que em inglês é apenas um: "to be". Dizer: "I'm happy" poderia ser traduzido por "Estou feliz" ou "Sou feliz". Mas para eles não há distinção, pois não? É disso que estou a falar. Podemos ser uma coisa e estar outra e graças a esta língua tão vasta podemos representar praticamente tudo o que quisermos. O que eu quero dizer é que ninguém pode ser só uma coisa. Há uns livrinhos engraçados que costumava ler, são vários livros em inglês de uma colecção chamada "Mr. Men", de Roger Hargreaves, e em cada um deles há uma personagem cujo nome é a sua característica principal. Há o "Mr. Happy", o "Mr. Grumpy", o "Mr. Tickle" e por aí fora. E no fim de cada livro, cada uma dessas personagens aprende uma lição que lhe modifica ou apenas molda a sua característica principal. Todos nós podemos aprender a ser outra coisa qualquer. No meu caso, eu apenas transformei este blog num diário virtual de tristezas e melancolias, para além de outras coisas. Na vida real sou bem feliz, acho eu. Não me quero alongar nisto, porque quero deixar espaço para escrever sobre a felicidade.

Vamos a isto: a forma mais comum de felicidade é representada por um sorriso. Para mim, isso é a sua forma simplificada, porque ela é muito mais que isso. Há um autor de que gosto muito, Bertrand Russell, matemático e filósofo [nunca consegui perceber como é possível alguém ter sido duas coisas quase antagónicas], que caracterizava a felicidade como sendo um apetite pela vida, oposto à melancolia de que se falava na altura em que viveu e de toda aquela teoria que nos definia como sendo seres-para-a-morte.

[Não quero transformar isto num tratado, mas acho que muitos leitores já terão adormecido com a cara nos respectivos teclados, por esta altura]

Há três coisas que estão intimamente ligadas: felicidade, vida e amor. O que é comum hoje em dia é pensar-se que o objectivo principal da vida é a felicidade e que ela pode ser alcançada através do amor. No entanto, penso que o simples facto de viver seria razão para sermos felizes e sermos felizes deveria fazer com que quisessemos amar. Ou, por outro lado, se amarmos a vida podemos ser felizes, o que é uma explicação mais simplificada. Por isso a felicidade é para todos.

Há pouco tempo vi um filme chamado Into the Wild, em que [spoiler!] a personagem principal se dava conta, no clímax da sua existência, de que a felicidade só é real quando é partilhada, mas só se deu conta disso quando se viu sozinho no leito de morte [/spoiler!]. Com isto me dei conta de que estamos demasiado obcecados com coisas, porque pensamos que é daí que advém a felicidade. No entanto, aposto que um mendigo que tenha escolhido para si essa vida ou um monge que viva em voto de pobreza são muito mais felizes do que nós, com as nossas casas bem equipadas, os nossos carros e as nossas festas, porque sabem distinguir a felicidade de uma mera alegria que a compra de algum objecto nos possa trazer.

Por isso cheguei ao ponto onde queria chegar: a felicidade não é apenas uma coisa, são várias emoções e sentimentos que nos fazem sentir no ponto alto de alguma coisa. Isto foi muito vago, eu sei, mas é difícil estabelecer uma escala de felicidade já que, como tudo, ela varia de indivíduo para indivíduo [alguns investigadores estabeleceram um Inventário da Felicidade em Oxford, baseada na idade, no rendimento, na religião e noutras coisas mais de várias pessoas, mas eu continuo a achar tudo isso de construir uma escala de felicidade uma grande quimera].

O que eu realmente penso: a felicidade está nas pequenas coisas. Penso que passamos a vida a tentar a ser muita coisa: muito saudáveis, muito ricos, muito bons, muito felizes. E por isso estamos sempre insatisfeitos, o que nos torna pouco saudáveis, pelo menos psicologicamente; muito pobres de espírito; muito maus, às vezes mesquinhos; e muito infelizes.

Não nos contentamos com o razoável, penso eu. Mas é isso que nos caracteriza e é por isso que chegámos até aqui. A constante insatisfação é também uma forma de atingir a felicidade, penso eu, ou pelo menos a felicidade de que estamos à espera, já que a maior parte de nós tende a buscá-la em coisas palpáveis. Mas nem sempre nos apercebemos de que somos felizes, porque achamos que pode haver mais. Se calhar até pode, mas temos de aprender a contentarmo-nos com pouco. E é por isso que eu penso que a felicidade está nas pequenas coisas.

Freud escreveu algures que não conseguimos atingir a felicidade nem na busca do prazer nem no evitar da dor. E é precisamente isso: somos felizes no nível intermédio, coisa que ainda não aprendemos a aceitar.

Coisas que me fazem feliz: ver a lua no céu limpo, estar com aqueles de quem gosto nem que seja para partilhar o silêncio, o sorriso dos que me rodeiam, um bom livro, chocolate, escrever, música, ser saudável, um abraço, partilhar pipocas no cinema, contar piadas parvas, cozinhar, rir-me, escutar palavras n oouvido, ver paisagens de dia ou de noite, mãos dadas, sentir o coração bater com mais força e todas essas coisas pueris que, apesar de tudo, nos fazem sentir vivos.

É isso que procuramos: coisas que nos gritem aos ouvidos que fazemos parte de um mundo, de uma realidade, de uma vida.

Mas então, será a razão contrária à felicidade, como dizia Kant? Se calhar. Mas há quem seja feliz a pensar racionalmente. E há quem seja feliz por não pensar, de todo. Bertrand Russell dizia que tinham mais facilidade para encontrar a felicidade os letrados, os que sabiam ler, escrever e pensar. Eu digo que é tudo muito relativo e que só nos vamos aperceber da nossa felicidade ou dos momentos em que fomos realmente felizes quando estivermos perante as portas da morte.

Eu e a minha mania de generalizar. Isto é apenas o que eu penso e qualquer coincidência com a realidade é pura semelhança.

[nunca a citação com que termino todos os posts fez tanto sentido, acho eu]

"Happiness is a sad song..."

Monday, June 15, 2009

Post tipo retweet de mim própria I

Quando estás por cá não me lembro da dor das saudades. Quando estás longe não me lembro o que é não ter saudades.

"Happiness is a sad song..."

do cinema I (que título tão original)

Aqui há tempos insistiram para que fosse ver o filme ao cinema. Não fui. Depois insistiram para que o visse em casa. Não vi. Depois foram insistindo e eu, hoje, lá vi o filme. Calmamente, com a casa vazia e já com a decepção em mente.

Fiquei positivamente surpresa. Na verdade, continuo a preferir os filmes mais antigos de Woody Allen [não há nada com o charme e o talento da Diane Keaton em comparação com os pára-choques da moça loura e de voz rouca cujo nome nem vou referir], como o Manhattan ou Annie Hall ou mesmo The Purple Rose of Cairo. Mas adorei o humor pungente e sarcástico e todo aquele ambiente que o senhor consegue recriar, de forma cada vez mais aguçada.

Obrigado a quem insistiu =)

"Happiness is a sad song..."

Saturday, June 13, 2009

Devaneios culinários

Como contribuir para aumentar o colesterol, a tensão e possivelmente alguns quilos num só dia: começar a manhã com uma vontade incrível de cozinhar: misturar farinha, ovos, açúcar e leite numa tigela, sujar o pijama (muito importante para o sucesso da receita) e depois cozinhar numa frigideira a massa de cor alaranjada até conseguir virar no ar panquecas de formato arredondado. Ir acumulando uma pilha cheia delas e depois besuntar umas quantas com doce de framboesa e chantilly ao ritmo desse grande compositor, Ravel.

Ficar estendida no sofá a ver quase nada até serem horas do almoço, histericamente anunciadas pelo irmão faminto, que não ficou contentado com as panquecas. Descascar batatas e cortá-las aos palitos, temperar bifes e ficar com as mãos a cheirar a alho, estrelar ovos e servir coca-cola com bastante gelo e limão em copos altos e adornados com palhinhas.

Arrumar o quarto, sem grande vontade e desistir a meio para ficar a conversar ao telefone enquanto se pintam as unhas. Desarrumar os livros de receitas até encontrar uma que agrade toda a gente e voltar à cozinha para enfrentar montinhos de farinha e cacau, ovos que se querem divididos em gemas e claras, sobreaquecer a batedeira e sujar a cara e a roupa, uma vez mais; esmagar erva-doce e derreter uma tablete de chocolate bruto, untar duas formas e ligar o forno, afastar o nariz curioso do irmão e fazer chá de camomila.

Um brownie que satisfez quatro pessoas, de tal forma que acabou em menos de vinte minutos e um bolo de milho que é capaz de durar até amanhã, se a noite não terminar numa ceia. Visitas inesperadas com filmes, fazer pipocas com sal e manteiga, preparar limonadas e passar o resto da tarde com o filme a decorrer à nossa frente, mas a conversar.

Depois, ao jantar, voltar a ligar o forno para cozer pizzas de tomate e mozzarela de búfala ao som dos Shadows, aquela banda dos anos 60 que o meu pai adora. E ter boa companhia que traz duas garrafas de vinho tinto que combina na perfeição com o estado de espírito e a refeição.

E isto só na quarta-feira. Nem conto como foi a quinta e a sexta.

"Happiness is a sad song..."

21 boas razões para gostar de viver

Gosto do número 13. Não sei quem inventou essa coisa de azar com este número. Dias 13, especialmente sextas-feiras são sempre dias de sorte para mim. E hoje é, sem dúvida, um dia muito especial.

Até podia dizer mais mas, por incrível que pareça, faltam-me as palavras. Podia ser mau, mas assim se mede a importância das pessoas: há aquelas que nos fazem escrever sonetos e prosas poéticas e há aquelas que nos tiram do mundo dos pensamentos e nos fazem esquecer o mundo, especialmente as palavras, de tão especiais que são.

Agora só me ocorrem momentos e pormenores. Afinal, disso é feita a vida. E a minha ficou mais colorida de há uns tempos para cá. E, no fundo, até há mais de 21 boas razões para gostar de viver, mas não me apetece enumerá-las.

"Happiness is a sad song..."

Thursday, June 11, 2009

Modernices


Já foram a um bar ou discoteca em que parecia que a música vibrava dentro de vós? Pois bem, este acessório da OhMiBod leva isso para outro nível. Na verdade, este brinquedo tem como objectivo descobrir aquela famosa nota musical da escala feminina ('G') e tocá-la ao ritmo da música que se ouve no ipod (mas também se pode usar separadamente). O melhor de tudo: é cor-de-rosa =)

As coisas que se inventam para ver as mulheres a curtir a música.

"Happiness is a sad song..."

Wednesday, June 10, 2009

Mais um ano (warning: post cheio de lamechices subliminares)

Era uma vez uma rapariga de 19 anos que descobriu um café simpático e acolhedor no meio de uma cidade e que decidiu fazer dele um ponto de referência.

Era uma vez um rapaz de 21 anos que trabalhava em part-time num café simpático e acolhedor no meio de uma cidade e que ocupava as horas vagas a ler, quando não havia clientes à vista.

Por alguma razão, de todas as vezes que a rapariga ia ao café, o rapaz estava lá, atrás do balcão, com a cabeça baixa e os olhos postos nas páginas. Por alguma coincidência, sempre que lhe apetecia tomar café, ele lá estava a trabalhar.

Por alguma razão, ele soube exactamente a forma como ela gostava do café, mesmo antes de a conhecer. Por alguma coincidência, até quando ela lhe pedia cappuccinos ou meias de leite, ele sabia como fazê-los sem precisar de perguntar. O único senão eram as chávenas, sempre demasiado escaldadas. Mas ela esperava pacientemente que elas arrefecessem, porque tinha vergonha de pedir chávenas frias.

Depois de algum tempo, ela passou a levar os livros da faculdade para o café e passava muitas horas debaixo da luz alaranjada, ao ritmo das músicas que ele escolhia.

Depois de algum tempo, ele passou a fazer-lhe companhia e quando o seu turno terminava ia sentar-se na mesma mesa que ela, com o seu livro, sem (precisar de) pedir autorização.

Durante algum tempo, nenhum dos dois falou. Ambos gostavam da companhia, mas preferiam não estragar o silêncio, por medo ou embaraço.

E então um dia ele teve coragem para lhe perguntar o nome. E ela teve então coragem para perguntar o nome dele. E ficaram a saber como encetar conversas, pois o nome é também uma forma de denunciar identidades.

Do nome partiram para as origens de cada um e depois daí para gostos, muitos em comum, e depois daí para livros e depois para músicas e então ela teve coragem de lhe pedir que não escaldasse tanto as chávenas. E ele teve coragem para dizer que apenas o fazia para que ela ficasse mais tempo no café. E ela teve coragem para lhe dizer que bebia devagarinho porque nunca lhe apetecia sair dali.

Algum tempo passou. Ele cresceu e tornou-se o adulto que nunca quis ser, ela cresceu e deu trambolhões e de todas as vezes ele estendia-lhe a mão para que ela se levantasse. Juntos, partilharam filmes a preto e branco, livros com as capas engelhadas, poemas de autores estrangeiros, músicas que iam descobrindo, luares em muitos lugares, sorrisos, bebidas com cafeína, conversas intermináveis, amigos, sítios especiais, chocolates, silêncios e, acima de tudo, partilharam a alma.

E da última vez que saíram juntos, numa manhã fria e parda, para ver o mar, sem trocar palavra, ela pensou que aquele era um dos seus amigos mais preciosos. E deu-lhe a mão gelada para ele a aquecer e perguntou-lhe como estava ele. E ele respondeu que estava feliz porque naquele dia fazia três anos que se tinham conhecido.

E hoje faz 24 anos aquele rapaz que não queria crescer, mas que, sem querer, se tornou o adulto mais especial que a rapariga conheceu. E a rapariga está triste, porque o rapaz está longe dela e ela não lhe pode dar um abraço e um beijinho na testa e dizer-lhe "Parabéns por existires".

O mais que a rapariga pode fazer é escrever no seu diário virtual o quanto gosta dele e esperar que ele veja.

"Happiness is a sad song..."

Monday, June 08, 2009

Um post a sério (isto é, sem grandes devaneios lunáticos) sobre modernices

É claro que isto não é um post a sério, só queria assustar quem me lê. Quem me conhece sabe que há poucas coisas que levo a sério. E quem me conhece sabe que sou uma info-excluída, metade por opção, metade pela força das circunstâncias - sim, confesso orgulhosamente que tenho apenas dois neurónios e que um deles é extremamente preguiçoso.

De há uns tempos para cá, ando assustada com isto das novas tecnologias, especialmente porque quando pensamos que uma coisa é novidade, lá vem outra que torna a anterior num dinossauro. Isto faz-me confusão, porque sou daquelas pessoas que se apegam tanto a seres humanos como a objectos e custa-me que as coisas passem de moda tão depressa. Por moda, defino tudo aquilo que me cai no goto, quer esteja ou não na crista da onda (esta expressão, por exemplo, já passou de moda "há que tempos").

Fico arrepiada com estes novos conceitos que japoneses e americanos criam e que toda a gente agarra com unhas e dentes. Fico indignada quando, de repente, a nova geração retrata tudo o aquilo a que já me habituei a ter à minha volta como "ultrapassado". Especialmente no que toca a livros. Fiquei irritada hoje, quando fui tomar um cafezinho matinal e comprar o jornal, e ouvi um bando de adolescentes referir-se a livros como sendo uma coisa do século passado. Teria sido mais condescendente se estes adolescentes não estivessem vestidos como se fossem para uma festa de Carnaval subordinada ao tema "como-gastar-a-maquilhagem-da-mãe-e-fazer-a-avó-ter-um-enfarte-ao-olhar-para-a-nossa-fronha".

Tudo bem que hoje em dia os conceitos andam um pouco baralhados, especialmente porque o formato em que as coisas foram concebidas não são os mesmos: uma coisinha com ecrã e botõezinhos (aka Kindle) também é um livro, por exemplo. Foram-se os formatos e ficaram os conceitos. Mas os conceitos, penso eu, também mudam com a renovação dos suportes. Não consigo olhar para uma geringonça com botõezinhos e chamá-la de livro. Seria o mesmo que olhar para uma maçã verde e chamá-la de limão só porque é ácida. Mas parece que eu é que estou errada, a julgar pela opinião destes jovens e de meio mundo.

Fala disto esta pseudo-pessoa que tem um ipod (ganhei-o num concurso, não o comprei, o que é importante referir e chamo-o de grafonola digital pocket-size) e que tem uma pasta de shuffle com os últimos êxitos de
dance music misturadas com rapsódias de Bach e Beethoven.

No entanto, para mim um Kindle ou um Sony Reader não são livros, ponto final. Ainda me lembro de ter descrito um livro a pedido de uma professora no 7º ano como sendo um "objecto, com capa, contra-capa, páginas e lombada, que serve o propósito de lazer ou estudo". Continuo a pensar nesta definição quando me refiro a um livro.

Os livros são coisas que podemos cheirar e que nos invadem com o aroma a papel, que podemos amolgar e deixar com os cantos dobrados, que podemos sujar com nódoas de comida, que podemos guardar na estante e fazê-la ceder ao peso dos volumes, que podemos sublinhar com um lápis, como se conversássemos com as palavras ou com o autor. Para mim, um e-book é um pseudo-livro.

Eu gosto de coisas transparentes, metaforicamente falando. Continuo a preferir os átomos aos bits, porque me fazem confusão coisas em que não podemos tocar: são como sentimentos, só lhes podemos pegar através de um intermediário (a amizade está para um amigo assim como o bit está para uma engenhoca digital - não tocamos na amizade nem nos bits de um e-book, mas tocamos num amigo ou num Kindle).

Não sou totalmente aversa às novas tecnologias: por exemplo, não me importava de ter uma Espresso Book Machine (uma maquineta de print-on-demand que tira livros como quem tira cafés - 100 páginas num minuto) ou que um livro meu fosse transformado em audiobook. Mas há coisas que não deviam mudar. Eu sei, eu sei, estou a escrever num blogue e já não passo sem ele, mas também não vivo sem caneta e papel.

Que me perdoem os adeptos das novas tecnologias, mas eu sou daquelas pessoas que acredita que, por vezes, o futuro está no passado. Desde que começou o "boom" das modernices, começou também o "boom" das doenças mentais, dos stresses e dos escândalos que nos fazem pensar que o mundo está do avesso (será coincidência?). Acho que éramos muito mais felizes no tempo em que aos treze anos andávamos a ver desenhos animados e a brincar ao "guelas" em vez de andar por aí a fazer bebés.

[desconfio que depois deste post ser publicado vou ter a caixa do email a abarrotar de gente a oferecer-me pancada]

"Happiness is a sad song..."

Sunday, June 07, 2009

dos domingos

Os domingos frios sabem melhor. É que os domingos são feitos de memórias e as memórias combinam com o cinzento do tempo. Há mais coisas que combinam assim tão bem, como se tivessem sido feitas juntas e depois separadas pela vida fora. Por exemplo, os domingos parece que foram criados para não se fazer sentido. Por isso combinam com conversas surreais. De preferência acompanhadas de chá e bolachas. Companhia ou não é subjectivo. Numas vezes há, noutras não.

Domingos são melancolia e aborrecimento. Mas nós vamo-nos habituando a eles e lá os vamos colorindo com passeios e longas refeições e visitas e música old school e filmes. No entanto, por mais que tente não consigo gostar de domingos.

[mas este não foi assim tão mau...obrigado L. pelo passeio matinal e obrigado S.Pedro por me teres deixado rir à chuva]

"Happiness is a sad song..."

Friday, June 05, 2009

Mais do mesmo

Junho costuma ser um mês instável. Como o tempo. E agora que chove lá fora e que o céu pardo zomba de quem já se tinha habituado ao calor, percebo que Junho é um mês demasiado parecido comigo para gostar dele. Costuma ser sempre assim com tudo e todos.

Acho que ando no mundo dos sonhos. Quando não se consegue dormir mais de cinco horas por noite, a realidade acorda distorcida. Dou por mim a duvidar de coisas que acontecem e dou por mim em sonhos a perguntar a mim própria se não estarei acordada. Gosto disto e pergunto-me como serão estas memórias, daqui a algum tempo. Pergunto-me se a minha mente vai arquivar estas coisas na pasta dos sonhos ou na pasta da realidade.

Nos sonhos consigo ter algumas certezas. Quando penso que estou a sonhar, é como se estivesse mesmo e, por isso, consigo ter certezas. É por isso que gosto disto. Por exemplo, tenho a certeza que gosto de sair de casa de noite para encontrar a lua quase no mesmo sítio de sempre, onde quer que eu esteja; tenho a certeza de que há momentos especiais onde quer que se esteja, desde que estejamos acompanhados de pessoas especiais; tenho a certeza de que há pessoas que fazem o coração bater mais depressa e que, por isso, nos fazem sentir vivas; tenho a certeza de que ter o meu diário com as páginas quase todas preenchidas não é coincidência; tenho a certeza de que não sei como é que o coração funciona, mas ele funciona e é isso que interessa. Tenho a certeza de que gosto de me esquecer de pensar, mesmo que isso implique cometer loucuras.

Gosto de ter pequenas certezas que me dizem muito. Prefiro isso a ter grandes certezas que nos fazem duvidar das pequenas. Ou que nos fazem sentir demasiado completos para disfrutarmos delas. Não sou muito ambiciosa, não.

"Happiness is a sad song..."

(In)certezas

Hoje fiquei a olhar para aquele botãozinho que traz consigo a promessa de vazio. Dei por mim com o cursor por cima do botão e com o indicador a formigar, cheio de vontade de lhe dar um encontrão. Sim, apeteceu-me apagar este blogue. Mas depois pensei: será que sobreviveria? Provavelmente não. Recomeçaria. Já não consigo viver sem estes escritos nem com a ideia de não poder publicar devaneios. E não gosto de despedidas. Portanto, cá continua ele. Por enquanto.

"Happiness is a sad song..."

Thursday, June 04, 2009

Second thoughts

Tenho sempre estes momentos introspectivos que me fazem duvidar das coisas, depois de episódios insignificantes. Não se trata de pesar pós e contras, trata-se de pesar apenas os contras. É aí que começam os problemas. Não é bem aí, eles começam antes, no momento em que se esquecem as coisas boas e a mente se foca nas más. No entanto, quando nos esquecemos do lado positivo e apenas conseguimos encarar o negativo, é sinal de que há uma parte de nós que não se importa com isso ou, por outro lado, que privilegia o lado menos bom porque é esse que lhe interessa, o que quer dizer ou pode querer dizer que as coisas boas deixaram de fazer diferença.

Ter second thoughts é algo a que já estou habituada porque tem sido sempre assim: quando me sinto confortável com alguma coisa, há sempre o raio de um pensamento, estilo ideia, mas que em vez de surgir como uma lâmpada surge como um relâmpago, que irrompe do nada depois de alguma coisa sem importância ter acontecido. O que têm esta lâmpada e este relâmpago em comum: surgem quando menos se espera e não se sabe ao certo onde vai incidir a luz. Para dizer a verdade, nem sequer deveria comparar a lâmpada com o relâmpago, porque dificilmente uma lâmpada deixa um rasto mortal. Whatever.

Talvez eu esteja a exagerar. Mas quando começo com second thoughts já não há forma de voltar ao antes. Resta apenas o depois, que costuma ser previsível. Sim, eu sou esse tipo de pessoa estúpida ao ponto de cair duas ou mais vezes no mesmo erro: a analogia perfeita seria olhar para uma casca de banana, pisá-la na mesma e estatelar-me no chão.

O que eu sei é que second thoughts trazem catástrofes. Por isso é que eu detesto coisas insignificantes. Às vezes são tipo elefantes numa loja de porcelanas. Talvez o melhor seja fazer uma lobotomia. Decapitação também já me passou pela cabeça. Sim, isto foi irónico.

"Happiness is a sad song..."