Eu não sei quem é que se dá ao trabalho de me enviar emails a congratular posts, a pedir posts sobre determinados assuntos, a perguntar se me podem conhecer e, mais estranho de tudo, a pedir a minha opinião sobre isto ou aquilo.
Quando coloquei o meu endereço de email na barrinha aqui ao lado, não sabia bem o que esperar. Na verdade, só o pus lá porque me pareceu democrático [naquela altura andava a fazer um trabalho para a faculdade sobre a censura e essa foi a forma de demonstrar a minha revolta contra o lápis azul].
Ontem, depois de jantar, sentei-me, com a minha canequinha de estimação cheia de meia de leite, para ver o email. Por entre spam e aqueles típicos powerpoints que nos entopem a caixa de correio, encontrei uma mensagem que me pareceu digna de registo. Na verdade, a princípio pensei que fosse spam, mas na verdade, era uma espécie de carta que demorei cerca de meia-hora a ler, não por ser comprida, mas por ser profunda. Obrigado ao Anónimo que a enviou.
Levei algum tempo a pensar se responderia no blog, como foi pedido. O Anónimo incitou-me a explicar, por minhas palavras, o que é a felicidade, pois pareceu-lhe que eu era uma pessoa triste. O que se segue requeriu muitas lufadas de ar fresco e uma certa dor de cabeça, já que os meus dois neurónios não estão habituados a trabalhar tanto.
Em primeiro lugar, o que é isso de explicar por palavras minhas? As palavras são de todos e no fundo não são de ninguém. E eu tenho a noção de que apenas as peço emprestadas para servir algum propósito. Neste caso, para escrever sobre a felicidade.
Eu não sou uma pessoa triste ou melancólica. Nós não somos o que escrevemos. Ou pelo menos é assim que eu penso. Por outro lado, todos temos em nós pedacinhos de várias coisas. Por exemplo, não sei se já reparou que, ao contrário da língua anglo-saxónica, nós temos uma panóplia incrível de palavreado. Eu gosto de referir o verbo ser ou estar, que em inglês é apenas um: "to be". Dizer: "I'm happy" poderia ser traduzido por "Estou feliz" ou "Sou feliz". Mas para eles não há distinção, pois não? É disso que estou a falar. Podemos ser uma coisa e estar outra e graças a esta língua tão vasta podemos representar praticamente tudo o que quisermos. O que eu quero dizer é que ninguém pode ser só uma coisa. Há uns livrinhos engraçados que costumava ler, são vários livros em inglês de uma colecção chamada "Mr. Men", de Roger Hargreaves, e em cada um deles há uma personagem cujo nome é a sua característica principal. Há o "Mr. Happy", o "Mr. Grumpy", o "Mr. Tickle" e por aí fora. E no fim de cada livro, cada uma dessas personagens aprende uma lição que lhe modifica ou apenas molda a sua característica principal. Todos nós podemos aprender a ser outra coisa qualquer. No meu caso, eu apenas transformei este blog num diário virtual de tristezas e melancolias, para além de outras coisas. Na vida real sou bem feliz, acho eu. Não me quero alongar nisto, porque quero deixar espaço para escrever sobre a felicidade.
Vamos a isto: a forma mais comum de felicidade é representada por um sorriso. Para mim, isso é a sua forma simplificada, porque ela é muito mais que isso. Há um autor de que gosto muito, Bertrand Russell, matemático e filósofo [nunca consegui perceber como é possível alguém ter sido duas coisas quase antagónicas], que caracterizava a felicidade como sendo um apetite pela vida, oposto à melancolia de que se falava na altura em que viveu e de toda aquela teoria que nos definia como sendo seres-para-a-morte.
[Não quero transformar isto num tratado, mas acho que muitos leitores já terão adormecido com a cara nos respectivos teclados, por esta altura]
Há três coisas que estão intimamente ligadas: felicidade, vida e amor. O que é comum hoje em dia é pensar-se que o objectivo principal da vida é a felicidade e que ela pode ser alcançada através do amor. No entanto, penso que o simples facto de viver seria razão para sermos felizes e sermos felizes deveria fazer com que quisessemos amar. Ou, por outro lado, se amarmos a vida podemos ser felizes, o que é uma explicação mais simplificada. Por isso a felicidade é para todos.
Há pouco tempo vi um filme chamado Into the Wild, em que [spoiler!] a personagem principal se dava conta, no clímax da sua existência, de que a felicidade só é real quando é partilhada, mas só se deu conta disso quando se viu sozinho no leito de morte [/spoiler!]. Com isto me dei conta de que estamos demasiado obcecados com coisas, porque pensamos que é daí que advém a felicidade. No entanto, aposto que um mendigo que tenha escolhido para si essa vida ou um monge que viva em voto de pobreza são muito mais felizes do que nós, com as nossas casas bem equipadas, os nossos carros e as nossas festas, porque sabem distinguir a felicidade de uma mera alegria que a compra de algum objecto nos possa trazer.
Por isso cheguei ao ponto onde queria chegar: a felicidade não é apenas uma coisa, são várias emoções e sentimentos que nos fazem sentir no ponto alto de alguma coisa. Isto foi muito vago, eu sei, mas é difícil estabelecer uma escala de felicidade já que, como tudo, ela varia de indivíduo para indivíduo [alguns investigadores estabeleceram um Inventário da Felicidade em Oxford, baseada na idade, no rendimento, na religião e noutras coisas mais de várias pessoas, mas eu continuo a achar tudo isso de construir uma escala de felicidade uma grande quimera].
O que eu realmente penso: a felicidade está nas pequenas coisas. Penso que passamos a vida a tentar a ser muita coisa: muito saudáveis, muito ricos, muito bons, muito felizes. E por isso estamos sempre insatisfeitos, o que nos torna pouco saudáveis, pelo menos psicologicamente; muito pobres de espírito; muito maus, às vezes mesquinhos; e muito infelizes.
Não nos contentamos com o razoável, penso eu. Mas é isso que nos caracteriza e é por isso que chegámos até aqui. A constante insatisfação é também uma forma de atingir a felicidade, penso eu, ou pelo menos a felicidade de que estamos à espera, já que a maior parte de nós tende a buscá-la em coisas palpáveis. Mas nem sempre nos apercebemos de que somos felizes, porque achamos que pode haver mais. Se calhar até pode, mas temos de aprender a contentarmo-nos com pouco. E é por isso que eu penso que a felicidade está nas pequenas coisas.
Freud escreveu algures que não conseguimos atingir a felicidade nem na busca do prazer nem no evitar da dor. E é precisamente isso: somos felizes no nível intermédio, coisa que ainda não aprendemos a aceitar.
Coisas que me fazem feliz: ver a lua no céu limpo, estar com aqueles de quem gosto nem que seja para partilhar o silêncio, o sorriso dos que me rodeiam, um bom livro, chocolate, escrever, música, ser saudável, um abraço, partilhar pipocas no cinema, contar piadas parvas, cozinhar, rir-me, escutar palavras n oouvido, ver paisagens de dia ou de noite, mãos dadas, sentir o coração bater com mais força e todas essas coisas pueris que, apesar de tudo, nos fazem sentir vivos.
É isso que procuramos: coisas que nos gritem aos ouvidos que fazemos parte de um mundo, de uma realidade, de uma vida.
Mas então, será a razão contrária à felicidade, como dizia Kant? Se calhar. Mas há quem seja feliz a pensar racionalmente. E há quem seja feliz por não pensar, de todo. Bertrand Russell dizia que tinham mais facilidade para encontrar a felicidade os letrados, os que sabiam ler, escrever e pensar. Eu digo que é tudo muito relativo e que só nos vamos aperceber da nossa felicidade ou dos momentos em que fomos realmente felizes quando estivermos perante as portas da morte.
Eu e a minha mania de generalizar. Isto é apenas o que eu penso e qualquer coincidência com a realidade é pura semelhança.
[nunca a citação com que termino todos os posts fez tanto sentido, acho eu]
"Happiness is a sad song..."